Não tão doce Juliete

Não tão doce Juliete

quarta-feira, março 29, 2017

Frenesi



Frenesi
Lua cheia, rio adentro.
Frenesi
Lua minguante, força inconstante.
Frenesi
Lua nova,  tentativa de vitória
Frenesi
Lua crescente, fogo ardente.
FRENESI

Frenesi
Eu te quero
Eu preciso
Eu te espero
Eu anseio por ti

Frenesi
Besta fera
Busca na noite
Frenesi desembestado
A eterna balada

Frenesi
De sangue e de sexo
De sangue e prazer
De prazer e de dor
De dor e  ao final
Frenesi
Redenção

Frenesi
Acabou
A humana forma retornamos

Frenesi
No metrô
No busão
Na ciclovia

Frenesi
A segunda-feira chegou
É dia do trabalhador




FARO(L)



Atração eu não tenho
Tenho fogo, que queima como cachaça quando é bebida pura, no seco
Secura é o que sinto
Quando a aguardente sobe e deturpa os sentidos

Sentido? Eu nunca fiz muito
Hoje faço menos ainda
Olho pro que fiz e pro que deveria ter feito
E não fiz
Sinto gosto de fel

Tal qual idiota em minha posição faria tamanha babaquice?
Eu só queria seguir a direção que meu nariz apontava
E descobri que meu faro, de lobo,  não me valia de nada
Apontei pro céu
Chafurdei-me na lama.



CANETA-NAVALHA




Escrever algo que preste não é fácil, mas não se trata de qualidade.  O que escrevo agora , escrevo por não conseguir ordenar o que se passa na mente, enlouquecer-me-ei  por não ter ninguém para quem contar.
Escrevo com a caneta-navalha na mão. Sou cão que ladra e não morde, e quando ataco percebo logo no instante seguinte que mordi meu próprio rabo.
Olhar turvo, sangue subindo e adocicando minha boca. Como um beijo dela? Não, da outra.
Beijo com gosto de cigarro, tabaco, fumaça, cramulhão compactado em 80mm.
Escrevo com o maço-maçarico na mão, o café, escudo, na mesa. Escrevo não sobre ciúmes, amor, ou paixão, escrevo sobre a égide da solidão.
Solidão de quem escreve e não tem como escrever sem que a caneta-navalha lhe dilacere a carne, o corpo.
A cada vírgula um corte, a cada ponto uma gota de sangue no chão.

Ao final do dia, sem cigarro, sem café, sozinho no escuro, me faltam pele e órgãos para escrever, pois a caneta-navalha já cortou tudo: coração, perna, mente, costas, e cortou sobretudo, e principalmente, as minhas duas mãos.

Dona Glória

Para que lutar
Se no final, quando tudo acabar
Ninguém vai se lembrar de mim?

Para que fingir que ta tudo certo
Quando não  está?

Porque nos ensinam a sonhar
Um sonho infindável
A jornada por glória?

Glória de quê?
Glória pra quem?
Glória em ser algo que não é
Algo que não se quer ser
Algo que nem se sabe o que se é


INVERNO NA PRAÇA XV


To atrasado, senhora, não posso ajudar
To atrasado, senhor, não posso comprar
To com pressa, moça, não enrola na minha frente.
“Puta queo pariu!” Pq o sinal não tá aberto?
Corre, corre, pega o metrô
Nossa! Aqui tá apertado, parece mais um elevador
To atrasado, to com pressa, mas já to na Praça XV
E no banco da praça, com calma, sem pressa ou melindre
A ruiva de cabelos longos, sentada, pernas cruzadas
O livro na mão, poesia  agasalhada
Poesia sem pressa, nem ela, e nem a moça
Não olham pro idiota que tropeça, cai, derruba o cigarro
Pro moço que anda de skate, despreocupado.
E eu ali, sem tempo hábil, de sentar ao lado dela
E sem trela
Pedir que ela me ensinasse
Sem culpa, e sem pressa.
O poder de parar o tempo, o meu, o dela.
E de todos os que passam
No frio do concreto
Da praça XV.




INVERNO NA PRAÇA XV


To atrasado, senhora, não posso ajudar
To atrasado, senhor, não posso comprar
To com pressa, moça, não enrola na minha frente.
“Puta queo pariu!” Pq o sinal não tá aberto?
Corre, corre, pega o metrô
Nossa! Aqui tá apertado, parece mais um elevador
To atrasado, to com pressa, mas já to na Praça XV
E no banco da praça, com calma, sem pressa ou melindre
A ruiva de cabelos longos, sentada, pernas cruzadas
O livro na mão, poesia  agasalhada
Poesia sem pressa, nem ela, e nem a moça
Não olham pro idiota que tropeça, cai, derruba o cigarro
Pro moço que anda de skate, despreocupado.
E eu ali, sem tempo hábil, de sentar ao lado dela
E sem trela
Pedir que ela me ensinasse
Sem culpa, e sem pressa.
O poder de parar o tempo, o meu, o dela.
E de todos os que passam
No frio do concreto
Da praça XV.




REFUGIADO

Refugiado

Eu fujo, fugi.
Eu de outrora escorraçado, desgraçado.
Uma alma perdida buscando o fim da dor
Hoje eu luto, mato, grito, pra que os que meus irmãos
firmados pelos séculos de exploração
 Não possam ter, assim como eu
Um minuto de paz

Onde eu “colonizava”
Eles “invadiam”
Onde eu desbravava
Eles vêm causar destruição
E nessa guerra de narrativas de interesses vis
Os filhos da mesma mãe terra morrem pelas mãos de seus pais, de seus filhos, de seus irmãos.
Filhos da puta! Senhores da navegação!
Fecham fronteiras, as quais um dia eles cruzaram, dizimaram
Outrora genocídio?  (não, apenas colonização, expansão, desbravamento)
E hoje? Genocídio? (não, apenas proteção, segurança, discernimento).